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" Amar é ter um pássaro pousado no dedo.

Quem tem um pássaro pousado no dedo sabe que, a qualquer momento ele pode voar."

Rubem Alves

Nenhum de nós é tão bom quanto todos de nós juntos

Nenhum de nós é tão bom quanto todos de nós juntos

sábado, 2 de março de 2013

Quando se escuta...

Uma situação interessante e digna de alguma reflexão: Durante algum tempo e de forma pontual uma das crianças do meu grupo insistia em perguntar: -“Quantos dias faltavam para os meus anos.” A criança em causa, que por questões éticas será designada por A, tinha feito anos em Novembro, por essa razão respondi prontamente: Ainda falta muito tempo! Depois de alguma insistência respondi-lhe:- Ó A. vai ver ao friso dos aniversários. O friso foi construído pelas crianças, depois de vivenciarem situações de aniversários na sala e de terem construído o calendário para assinalar os dias das atividades no ginásio e das ciências. Este processo foi longo e exigiu envolvimento, pesquisa, recolha e tratamento de dados. O A. Afastou-se e eu continuei a apoiar o grupo que estava a construir animais para a maqueta. No dia seguinte no grande grupo surgiu a questão da mudança do mês. - “ L: olha Graça, o mês de fevereiro estar a acabar!” - “ M.J: Eu estou quase a fazer anos. E depois vamos cantar os parabéns!” Olhamos o friso e confirmamos! “É verdade! a MJ. faz 5 anos amanhã, no 1ª dia do mês de março.” - J.P: “Olha Graça, está aqui a palavra março para substituir o fevereiro.” Já tinha na mão o cartão com o mês de março. - “Sim acrescentei e já podemos mudar hoje? - Não, só amanhã Entretanto o A. voltou à conversa do dia anterior:”- ò Graça e eu? Quantos dias faltam para eu fazer anos? -“Então A! Já vimos isso ontem ainda faltam muiiiiiiitos meses, para chegar aos teus anos!” O A. Levantou-se e foi até ao friso dos aniversários, depois voltou e disse: -“Olha Graça anda cá! E como não podia deixar de ser acompanhei a criança até ao friso. “ Agora olha, estas a ver! Eu faço anos no dia 29, então! Aqui está 29, aqui também está e aqui também…então eu tenho que fazer anos!” Pumba fez-se-me luz! Como podia ter deixado passar uma situação destas? Quantas vezes temos por adquirido que as crianças estão na posse de todas as informações trabalhadas! Como era possível numa sala que tem por lema escutar as vozes das crianças, partido da sua motivação para novas aprendizagem, ter acontecido uma situação destas! De facto só há uma coisa que me fez sentir menos mal, esta criança, apesar de ter demorado, foi efetivamente ouvida e só insistiu, na questão, porque se sentia à-vontade, sem medo de ser censurada e segura que a suas persistência a levaria a bom porto. É claro que os colegas prontificaram-se logo a esclarece-la. Também aqui foi interessante ver as conceções das crianças: Alex: - Olha A. Não podes crescer tão depressa! Tem que passar muito tempo para voltares a fazer anos. J.P.-“Pois esse tempo são os meses, só quando voltar outra vez ao mês de novembro é que tu fazes anos!” Alex: “ Se fizesses anos todos os meses qualquer dia chegavas ao teto.” “ E todos os meses têm la dentro os dias, mas só quando é o dia e o mês certo é que fazemos anos.” Voltamos ao friso e a situações concretas como o Natal a passagem de ano, o inico da escola e outras… A – “Está bem! Já percebi” Ainda há gente que insiste em “despejar” conceitos, saberes e verdades absolutas como se as crianças absorvessem conhecimentos mobilizáveis de forma inerte! Como se enganam!

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